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Contos de Literatura Fantástica - por Fernando David

Contos Sobrenaturais - Inexplicáveis - Obscuros - Psicológicos.
19 Juli

O Joguete

 

                                    O Joguete ”                                    SP. 17/08/05

                                                       por: Fernando David

 

Naquela manha, Flávio acorda um pouco mais cedo que de costume.

-          Que maldito calor – sussurra mesmo antes de abrir os olhos.

Sonolento, vai direto para o banho, quem sabe uma ducha bem fria o anime para o trabalho, como se a “água”, resolvesse o seu problema.

O jovem de vinte e três anos,  à oito no mesmo emprego de office-boy.

 - “Tudo bem, é o meu primeiro emprego”, - raciocinava,  mas o que o deixa indignado, é que todos na repartição, até mesmo, os com menos tempo de casa e de experiência, já haviam o ultrapassado.

Seis horas e quinze minutos, conferidos no relógio digital, nunca, que se recordasse, saíra tão cedo de casa.

Durante o trajeto, mesmo bem acomodado, com o ônibus mais vazio que de costume, o calor, aquela hora da manha, anunciava um “dia” daqueles.

Por inúmeras vezes, Flávio entrou em atrito com seu encarregado, departamento publico, todos concursados, demissões não haviam, e  atritos, eram comuns e não cessariam, mas a promoção, neste ciclo vicioso, nunca viria.

O gênio forte, sem duvida, foi forjado ali, Flávio entrou pela primeira vez naquela repartição, um menino, sem um pelo no rosto, mas servindo café, recolhendo o lixo dos cestos, a carregando pesadíssimos volumes de papeis, e subindo e descendo de arquivos deteriorados, hoje, era um jovem forte , a excelência no que fazia, além de músculos, o trouxe, a uma nova chance, “o mundo lá fora.”

Engolir a poeira, foi o estágio, sair hoje para rua, era de certa forma, uma promoção.

Toda á impessoalidade do local, o tornou bruto com o mundo, para evitar novos embates, o encarregado dos despachos, colocava, pontualmente os oito horas, o envelope com todo o serviço externo, na caixa de saída, bastava, que  Flávio o pegasse, e cumprisse com suas obrigações.

Sete horas e dez minutos, - Nunca cheguei nesse horário.- pensou conferindo o relógio.

Não havia uma viva alma naquele escritório, - Que dia quente. – pensava enquanto bebia um copo de água. - Mesmo sabendo ser improvável, resolveu abrir a caixa de saídas, e  surpreso, achou um envelope.

Havia um itinerário, e  vários documentos para serem protocolados, nos mais diversos pontos da cidade, cartórios, prefeitura, sindicatos, um dia cheio.         

Flávio achou aquilo muito estranho, mas lembrou que não seria nada impossível, o seu carrasco, ter colocado aquilo de véspera.

Respirou fundo, e aproveitando o eco, do ambiento silencioso e vazio, berrou um par de palavrões, e  saiu para o serviço.

Antes mesmo do almoço, já havia percorrido a metade do cronôgrama.

Por volta das quatorze horas, o estômago roncou fundo, Flávio conferiu sua carteira, e contabilizou, - Dois sucos, um refrigerante, cinco conduções, mesmo que fizesse um serviço a pé, o saldo nãos seria suficiente para um almoço, um salgado talvez, mas preferia um sorvete, por isto teria de andar um pouco, mas o calor era infernal, e julgava, não ter opção.

Sentou-se na praça e tomou o sorvete.

 

A cada lambida, matava a sede do calor, mas nutria além do corpanzil, outra  coisa, a raiva.

Oito anos de mal conviveu, tonaram, Flávio e seu encarregado, em inimigos.

O homem, na casa dos sessenta anos, funcionário de carreira, dos quais mais de quarenta dedicados a aquela repartição, no decorrer dos anos, pouco dava importância ao infeliz subalterno, na concepção dele, era apenas um jovem afoito, e sua hora chegaria, mas a imaturidade de Flávio, nos últimos tempos,    

chamou a atenção do rigoroso chefe, e numa de suas tempestuosas, reclamações, o velho homem ouviu Flávio rogando-o.

-          Eu quero mais é que esse velho demônio morra, - dizia Flávio.

-          Calma rapaz.-  sugere um dos escriturários.

-          É isso mesmo que penso, e sabe o que mais, se deus quiser eu morro antes de ficar um velho nojento como esse.  – completou.

-          Rapaz, não diga isso, você é jovem, terá a sua chance.

-          Chance de ficar louco, ou de ficar velho? – pergunta irônico.

-          Não diga isso, todo velho é sistemático, você também o será.

-          Eu prefiro a morte. -  conclui.

-           Os senhores estão sem serviço. – indaga a voz.

A porta se fecha, e os dois jovens, ficam do lado de dentro da saleta.

-          Está vendo só o que você fez. – conclui o amigo, deixando Flávio sozinho.

-          É bom mesmo que esse velho saiba. -  conclui Flávio.

 

Engolindo o ultimo pedaço da casquinha do sorvete, Flávio, resolve conferir o restante do itinerário.

Já a alguns anos no serviço externo, acostumou-se com o mesmo, e a “sistemática” do velho, sempre, haviam os endereços, locais, e horários que deveriam ser, ao menos em tese, cumpridos a risca, mas era imprescindível, e todos na repartição sabiam disso, que o serviço fosse todo executado.

Flávio, correu os olhos nos oito endereços, e  concluiu. – Muito bom, só restam três.    

-          Que diabos é isso! – Olhou para o rodapé da folha, e seus olhos surpresos detectaram uma minúscula palavra.

Passou a mão sobre o papel e continuou – Droga, deve ser do sorvete.

Mas não era, percebendo que a escrita não saia, Flávio, levou o papel bem próximo dos olhos e conseguiu enfim ler. – Vire.

O rapaz virou a folha, e no seu rodapé, em diminutas palavras, havia uma mensagem.

“ Retirar um volume na Rua Providencia Divina, nº 33, 6º andar sala F, impreterivelmente, até as 18 horas.”

-          Desgraçado. - esbravejou espantando as pombas da praça.

Flávio olhou para o relógio, e conferiu sua sorte, eram quatorze horas e quarenta minutos, teria pouco mais de três horas para concluir os quatro afazeres restantes.

Que droga de vida, pensava e olhava para o relógio, graças ao sorvete, o dinheiro restante, não era suficiente para as quatro viagens, planejando com calma, Flávio modificou um pouco se trajeto, e conseguiria ao menos chegar aos locais, só não saberia, se em tempo hábil.

Sem muito problema completou duas tarefas, ter amigos nas filas sempre ajudava, mas rumando a prefeitura, que até horas atrás, achava ser seu ultimo destino, dentro do ultimo ônibus, e sem um centavo no bolso, Flávio pensou.

-          Mas que filho de uma grande ..., aquele velhote nunca fez isso, está me retaliando, porque sabe que eu, o odeio, isto, é só para me testar. -

pensava conferindo o relógio, -  dezesseis horas e cinqüenta e cinco minutos.

Após protocolar algumas certidões, saindo da prefeitura, Flávio, confere  novamente a hora dezessete horas e trinta e cinco minutos.

-          Pensa que sou burro, não vou pegar pacote nenhum, aposto como isso é serviço pessoal, eu nunca o faria um serviço pessoal. – conclui.

Flávio estava inquieto, o calor infernal daquele dia incomum, o estava deixando exausto, não fisicamente, mas aquele imprevisto, mexera com ele.

Decidido a ir para casa, Flávio, entrou num beco e enquanto se dirigia para o ponto do ônibus, arquitetava, - Se algum conhecido estiver por lá, eu consigo um empréstimo para a passagem.

Cabeça baixa, chutando pedras, poucas vezes passara pelo beco, e refletindo sobre tudo, encaixou as idéias.

Será que o não cumprimento do itinerário todo, pode me enquadrar como “não eficiente” na função, se for isto, aquele maldito, plantou minha ruína.

Somente em três casos, algum funcionário publico, daquele setor, poderia ser dispensado, pelo seu encarregado direto.

Quando, à ofensa moral, e/ou vias de fato. (briga), quando, à roubo, furto ou subtração de qualquer objeto, pessoal ou institucional, e finalmente, quando o funcionário é considerado, ineficiente para a função.

Essa regra simples, latejava na mente de Flávio.

Seria a gloria para aquele velhote, e a minha maior falha. – pensava.

- Sou um Joguete na mão daquele desgraçado. -  sussurra.

Na esquina do beco, Flavio olha para as placas presas no poste, e arregala os olhos quando lê. “Rua dos Lírios /  Rua Providencia Divina”. – Enfim um pouco de sorte. – grita Flávio dobrando a direita.

Conferindo a numeração da rua , o rapaz corre alucinadamente para chegar a tempo, e concluiu estar  dois quarteirões do numero indicado.  

Numa rápida conferida no relógio, -  Dezoito minutos, eu consigo!!!. – diz confiante.

Enfim, o numero 33, um prédio escuro, marrom desbotado, muito antigo, sem se alongar muito na fachada, Flávio empurra a pesada porta de vidro e avista o elevador, corre o máximo que pode em sua direção, e com o coração latente na boca, aperta o botão seis. 

O elevador não se mexe, aflito, da uma rápida olhada no relógio, e confere, “faltam doze”.

Insiste em apertar o botão, e antes de esmurrar o painel, ouve.

-          Calma meu rapaz, ele não vai a lugar algum sem mim.- conclui o ascensorista.

-          Por favor senhor, preciso ir ao sexto andar. - conclui preocupado.

-          Sim senhor, só um segundo.

De repente, uma senhora muito bonita e bem vestida, entra no elevador e cumprimenta todos – boa tarde.

Após cumprimenta-la, o ascensorista inicia o fechamento da porta, mas antes de findar, ouve, - Sobe!!

Nova parada, a porta se  abre, e um senhor, também entra no elevador.

-          Quinto andar pôr favor. – diz o homem.

-          O Quarto pôr favor. – confirma a mulher.

-          Eu já apertei o sexto, pôr favor, podemos subir? – suplica Flávio.

-          Calma meu jovem, paciência é uma virtude. – diz o ascensorista.

-          Isso ele ganha com a idade. – conclui o passageiro do quinto andar.

-          Não se preocupem serei um velhinho bem virtuoso. – conclui Flávio.

-          Segundo andar.

-          Ninguém vai ao segundo, é  quarto, quinto e sexto andares. – diz o jovem, malcriadamente.

-          Não vai descer no segundo? – insiste o ascensorista.

-          Não, pelo amor de deus, é sexto andar. -  fala irritadiço.

-          Sim senhor, o senhor é quem manda.

A porta se fecha e torna a abrir no quarto andar.

-          Quarto andar. –  como em quarenta, a idade da loba. - fazendo um trocadilho infame.

A mulher dá um sorriso e sai do elevador.

E a porta se fecha, e o elevador continua.

-          Quinto andar. – como em cinqüenta, meio século de experiência.

O homem retribui a gentileza sorrindo, e sai do elevador.

A porta de fecha, e o elevador continua.

-          Sexto andar.

Flávio não espera o trocadilho, e salta procurando a sala F.

Dá uma conferida no relógio,  faltam oito minutos.

Percorre o sujo corredor, e identifica, salas “A”, “B” e  “C”,  avista dois banheiros, masculino e feminino, e ao longe enfim vislumbra, as placas, salas “D”, “E” e “F”.

Apressadamente bate na porta da sala “F”, e nada acontece.

A ausência de campainha, o deixa nervoso, e com mais força, bate na porta.

Após alguns segundo de silêncio, as trancas da porta giram, a porta abre uma pequena fresta, a corrente de segurança, impede ver quem atende.

-          O que deseja? -  Pergunta, a rouca voz feminina.

-          Eu vim retirar um volume, é para o escritório contábil. – conclui.

A mulher estica um dos braços, e entrega um pequeno embrulho, menor que um maço de cigarros, envolto em papel pardo.

-          Obrig....

A porta bate com força, impedindo o agradecimento do rapaz.

Aliviado, o jovem caminha em direção ao elevador, e avista, que no fim do corredor, á um bebedouro.

Flávio aperta o botão, e antes que saia algo, o velho motor elétrico da máquina, range por cerca de três segundo, até jorrar uma água morna e enferrujada, que aos poucos fica límpida e fresca.

Quando finalmente o rapaz consegue saborear a água, saído do toalete um senhor de idade bem avançada, o empurra com todo o resto de força que tem, tentando beber um pouco de água.

Sua pouca paciência, e a suposta arrogância do velho, muniu Flávio de uma raiva descomunal, e antes que o velhote pudesse sorver algo, o rapaz o empurra com força, jogando-o contra a parede.

Antes de bater a cabeça na parede, e ficar desacordado, o velho homem ainda grita. – Seu Tolo!!

Flávio, indignado com o velho, porém, filtrando o ocorrido, se desespera e confere com um movimento de corpo, que o velhote sangra pelo ouvido.

-          Meu deus, o que foi que eu fiz.- se pergunta tentando entender. 

Algumas lagrimas caem de seus olhos, - Isso não pode estar acontecendo, eu matar um homem. – fala em prantos.

Estava arrependido, mas no extinto da sobrevivência, sabia que tinha uma chance de sair dali e continuar sua jovem vida.

A campainha do elevador toca, sinal que o mesmo, vem chegando ao andar.

Com medo de ser visto ali, junto ao corpo, Flávio entra no toalete masculino e se tranca num dos reservados.

Por alguns instantes, sentado no vaso sanitário, chora e pensa em tudo que ocorreu naquele dia infernal, - Meu deus, meu deus, repete sem parar.

Flávio, cobre com as mãos o rosto, tentando conter as lagrimas e o desespero de causa.

Após múrmuros e lamentações, o jovem tira as mãos do rosto, e  assustado repara em suas mãos.

-          O que há comigo- indaga sem entender.

As mãos de Flávio estão rugosas, como a de alguém que ficou horas embaixo da água, seu sapato parece folgado, seus ombros caídos, a calça e a camisa, largos, passa a mão na sua cabeça e sente de imediato a falta dos cabelos.

Com dificuldades, fica em pé e abre a porta do biombo.

Bem em frente de onde está , avista o ascensorista, sentado numa cadeira ao lado do espelho, segurando tolhas de papel.

-          Boa tarde meu senhor. – diz sorridente.

-          O que esta havendo comigo?

-          O senhor me parece muito bem.

Flávio caminha em direção ao espelho e vê que suas vistas estão péssimas, a medida que se aproxima, seu foco melhora e consegue enfim, ver no reflexo, que está velho.

-          Meu DEUS, eu à pouco, era um homem de vinte e três anos.

-          É, os anos passam, a gente nem sente, não é mesmo? – pergunta o homem.

-          Meu senhor, eu acabei de subir com os outros no elevador, queria ir até o sexto, não se lembra de mim?

-          Sim, o apressado, sim me recordo do senhor, deveria ter descido no segundo.

Flávio, apoia-se no mármore da pia, e tenta abrir a torneira, para lavar o rosto.

-          Mas o caso do senhor, só depende do senhor, não é mesmo? – indaga.

-          Está quebrada, não sai água. - reclama o velhote.

Enquanto falava coisas, sem sentido aparente, o ascensorista, olha em seu relógio, e pega uma caixinha azul do bolso, e retira uma pílula, também azul, de um tamanho considerável, o maduro homem tem um pouco de dificuldade de engolir, mas, com um certo esforço, consegue.   

-          Eu não entendi nada que o senhor me disse .– conclui Flávio.

-          Pode me chamar de você. – diz o homem.

O então velho Flávio, concentrado em sua decrépita imagem, tão pouco reparou no que acontecia a seu lado.

Olhou para o ascensorista e....

-          Que diabos ocorre aqui.- diz confuso – vendo no lugar do ascensorista, um jovem rapaz.

-          Somos todos peças de um enorme tabuleiro. -  diz o jovem ascensorista.

-          Eu odeio Joguetes, foi um que me trouxe a este maldito lugar.

-          Eu achei, que com o tempo o senhor fosse mudar, mas pelo visto aqui, o senhor nunca mudará.

-          Como fez isso, como ficou jovem novamente? -  pergunta Flávio irritadiço.

-          Eu já disse, seu caso e semelhante ao meu, semelhante, mas, não é igual, e  também, só depende de você.

-          O que tenho de fazer?

-          A solução para o seu problema, pode estar no seu bolso?

-          Eu não tenho um mísero centavo. -  esbraveja o velhote.

O ascensorista sorri, balança a cabeça em negativa, e indignadamente diz.

 - O pacote, que acabou de receber, a cura pode estar nele.

-          Não é meu..., que diabos, vou abri-lo. – o velho e angustiado homem, rasga o papel pardo e deixa desnuda, uma pequena caixa azul, e dentro uma pílula, da mesma cor.

-          Você tem exatos, 20 segundos para fazer uso dela. – afirma o jovem ascensorista, olhando para o relógio.

Flávio olha para seu relógio, e confirma, 17:59:42s, 43, 44...

O velho desesperado, joga o comprimido boca adentro, e percebe ser impossível, engoli-lo à seco, e para piorar, aquela torneira não funcionava.

-          O bebedouro. – indica o homem.

O velho, corre o máximo que lhe é possível, e,  ao se aproximar do bebedouro,  (- Onde está o morto? – pensa), consegue, focalizar um rapaz, tentando beber da água.

Um pouco antes de tentar, com o resto de suas forças, empurrar o homem, Flávio, num movimento de perspicácia, “reconheceu-se.”   “O velho, no maior paradoxo de sua vida, empurra a si mesmo, e , no revide do jovem, se mata novamente.”

E, em seu ultimo suspiro, diz.  - Seu Tolo!

Não é todo dia, que o seu carrasco, é você mesmo.

Flávio, está preso, à uma maldição, um funesto ciclo de intolerância, vivendo, como a uma moeda, que tem em suas duas faces, a mesma coroa.    

Muitas vezes, leva-se uma vida, para conhecer à si próprio, o que dizer, de um mísero instante.

Mas Flávio, terá toda uma eternidade, para tentar, mudar este instante. 

Todos nós, somos peças de um Joguete... e  à sempre uma chance...

A não ser... que você esteja como Flávio... em xeque-mate.

 

09 Dezember

C.A.A.

Desempregado, sem namorada, a família longe, o gato fugiu, Júlio, queria ter algo para fazer, mas agora, o mais importante era "desintoxicar" a mente, daquele emprego maldito.

Três anos sem folga, ambiente chato, - ahhh, que bom estar em casa. – pensava.

Júlio, mora numa sobre loja, acima de uma farmácia, aluguel barato, mas, equivalente à espelunca.

Sem o gato, para alisar e fazer companhia, o jeito, era colocar os velhos discos de vinil, em ordem, são tantos, que haveriam de distrai-lo por alguns dias.

Enquanto ouvia os clássicos, procurava deixar as capas, tomando um pouco de sol, na pequena varanda, na qual uma porta balcão, dava o acesso.

O mercado, que fechara à alguns meses, ficava quase em frente do seu "apertamento", e naquela manha, exibia uma Placa, "Em breve C. A. A."

  • Que gente mais sem imaginação – sussurrou – só pode ser outra escola de inglês.

Naquela semana ficou nisso, leu um pouco, lustrou discos, e no rodízio das capas ao Sol, reparava, que a reforma do novo comercio, ia muito rápido.

Na sexta-feira, Júlio desceu, tinha de comprar comida, cumprimentou o farmacêutico, _ Bom dia Sr. Rubens, o que vai ser ai em?

  • Eu nem sei não, viu menino Júlio, mas espero que ajude a aumentar a freguesia. – concluiu o velho homem.
  • E se for uma drogaria, em Sr. Rubens?
  • O meu filho, vira essa boca pra lá.

O velho, preocupado, entra pela portinhola e deixa Júlio falando sozinho, este, ri muito, e sai cantarolando, _ velho tolo, nunca seria uma drogaria com esse nome!

Certeza mesmo, só, a de que o mercado mais próximo, ficara bem distante.

No meio da madruga, Júlio acorda com um estrondo, vai até a varanda, e vê, caminhões, desembarcando com varias caixas.

  • Isto é hora de fazer entrega. - pensava enquanto ajeitava os óculos.

Durante a madrugada toda, ou, ao menos por parte dela, Júlio observou os homens trabalhando, fingindo, regou até os vasos de Azaléias deixados pela sua ex, mas, a certa altura, o sono foi maior que a curiosidade.

No Domingo levantou tarde, já na hora do almoço, e recebeu um telefonema, os amigos do escritório, o convidavam para um churrasco.

Júlio, ficou por lá mesmo, comeu e bebeu tanto, que acabou dormindo na casa do amigo, pela manha, ao sair para trabalhar, Beto, o acorda.

  • Bela adormecida, levanta.
  • Que horas são?
  • Sete horas, eu vou indo, senhor "ferias permanentes", deixe a chave na planta.
  • Esta bem, estou saindo, responde bocejando.

Chegando em casa, ao longe Júlio avista que o novo comercio está inaugurado.

  • Caramba, já inaugurou? – deixa escapulir.
  • É filho, isso é coisa grande. – responde o Sr. Rubens, imaginado ser perguntado.
  • E, o que é, em Sr. Rubens.
  • Não sei não, mais tarde eu fico sabendo. - conclui o homem.

A avenida estava cheia de gente, muitos na porta do CAA, Júlio sobe rapidamente, toma um banho de "gato", veste qualquer coisa, desce a escadaria, e ao abrir a porta.

  • Que diabos?

Não há, uma viva alma sequer, na rua, a farmácia, e o restante do comercio, todo fechado. Júlio, olha para a entrada do CAA, e vê dois enormes segurança, ambos negros, fortes, altos, com os manjados ternos pretos, e óculos escuros.

Com excesso de desconfiança, e com nítida falta de coragem para encarar os

leões de chácara, o jovem, passa a desfilar pelo local, e disfarçadamente, tenta "pescar" algo.

A fachada do prédio, era um mistério a parte, toda em vidro negro, uma pequena estrada, três degraus, uma porta de corpo duplo, e os dois seguranças, davam uma falsa impressão de ser uma "Boite", mas, isso é que não era, - pensava e andava, de um lado para outro.

Enfim tomou coragem, estampou um sorriso amarelo, e partiu em direção do CAA.

  • Pois não senhor? – pergunta um dos seguranças.
  • Não., é, quer dizer, eu quero entra? – diz gaguejando.
  • Infelizmente, o senhor não pode entrar. – responde o negro.
  • Esta lotado! – pergunta?
  • Não, não estamos lotados senhor.
  • Tem de pagar algo? – insiste.
  • Não senhor, não há ingresso aqui, por favor, queira ir embora. – conclui.
  • Como assim eu não posso... – Antes de terminar de falar, os dois seguranças, descem os degraus e ficam, a um palmo do nariz de Júlio.
  • O senhor não quer que nós, o retiremos daqui , quer? – diz o falastrão.

Olhando bem para dupla, "Fala grossa & Mudinho", como Júlio, já os havia apelidado, desde o primeiro instante, e, cabisbaixo, da meia volta.

Atravessa a rua, abre a porta, e sobe para casa.

Sem abrir a janela, Júlio observa através da cortina, que não há movimento, a um silêncio incomum, no ar, e vários minutos, depois tomado pela resto da ressaca, ele resolve tirar uma soneca, ainda é bem cedo, mais tarde, pergunto à Sr. Rubens. - conclui.

O falatório, o desperta, antes de lembrar do ocorrido, Júlio, olha no relógio, 16:23, - nossa, dormi demais - pensa.

Olha pela janela, e tudo corre normalmente, afoito, procura os óculos, e desce a escadaria tentado ajeitar os cabelos.

De cara, percebe que os segurança já não estão mais lá, mais tranqüilo, entra na farmácia, e vê o Sr. Rubens, atendendo no balcão.

  • Fechou hoje Sr. Rubens? - pergunta ao velho.
  • Eu abri mais tarde. - responde.
  • (Como abriu mais tarde??? ) _Aconteceu algo?
  • Não, nada não, dormi demais.
  • Sei, e descobriu o que é ai Sr. Rubens?
  • Não é uma drogaria. - responde passando pela portinhola.

Por algum motivo obvio, Júlio, não se convenceu com aquela conversa, olhando ao longe, para a fachada do CAA, se surpreende, ao ver as letras da fachada, ascenderem em neom, seja lá o que fosse, funcionava, dia e noite.

Durante a próxima semana, Júlio, deitado em sua varanda, apenas observa o movimento, achara um antigo binóculo, no baú dos brinquedos, e numa predestinação sórdida, decorou todos os meandros do CAA.

As oito horas, "Fala grossa & Mudinho", abriam o estabelecimento, as pessoas chegavam aos poucos, entravam sem demora, passavam em média, 40 minutos lá dentro, e saiam com uma sacolinha com o logotipo da CAA, na mão.

Que diabos vende ali? – se perguntava cada vez que via alguém sair.

O movimento era intenso, fechava por volta das 16:00hrs, e tornava a abrir as 20:00hrs, este segundo ciclo, ia até as 04:00hrs da manha.

E o que mais atormentava à Júlio, é que nunca, vira alguém ser barrado.

Até que um dia, viu quando Sr, Rubens, fechou a farmácia, e entrou no CAA.

Hoje eu pego esse velho. – dizia e calçava o tênis.

Júlio desceu, sentou na soleira da porta, e ficou ali, esperando por Rubens.

Duas horas e meia depois.

  • Julinho, nada de emprego ainda? - perguntou sorridente.
  • Ainda não Sr. Rubens, e ai, o que tem nesse CAA?
  • Você não foi lá ainda? - perguntou.
  • Ainda não tive a oportunidade. - responde tentando ser despretensioso. – Quer que eu segure a sacola enquanto o senhor abra a porta?
  • Não, pode deixar filho eu consigo. – diz o velho pressionando a sacola contra o peito.
  • O senhor não me respondeu. - insiste Júlio.
  • Vá lá, oras bolas, vá lá. – conclui o velho irritado.

Júlio, sobe irritado e pensativo, "que porra é essa".

Com o passar dos dias, 15, para ser exato, Júlio se tornara um homem obsessivo, vivia e planejava, a todo instante, uma forma de descobrir, afinal, o que era aquilo tudo.

Sábado, no começo da noite, Beto chega a casa de Júlio.

  • O que vai ser Pizza? – pergunta ao amigo.
  • Acho que sim, ao menos, posso come-la na mão, isto aqui esta imundo.
  • Eu estou meio sem tempo de limpar a casa.
  • Mas você não esta desempregado? - pergunta Beto.
  • Beto, vou te jogar a real. - fala Júlio - segurando nos ombros do amigo.
  • Já sei, vou ter de pagar a Pizza?
  • Para com esse negocio de Pizza, está vendo aquele toldo azul, lá, - vai até a janela, e aponta para o CAA.
  • Você quer que eu te pague uma noitada?
  • Não é um puteiro.- responde irritado.
  • O que é então.
  • É isso, que preciso saber, vou te dar R$50, você vai, e seja lá, o que for, descubra.
  • Cinquentão, só para ir lá, se for um zonão, eu vou gastar tudo!
  • Não é, isso eu sei, quero saber o que vende lá, traga um para mim, você pode fazer isso?
  • Claro, e porque você mesmo não faz isso?
  • Eu não posso, faça!
  • Okay.

Beto desce, abre a porta, segue em direção ao CAA, passa pelo seguranças, e entra.

Júlio, pula de alegria, parece um criança que flagrou, Papai Noel, com sua enorme bunda vermelha, entalado na chaminé.

As horas passam, uma, duas, e nada acontece, - Cadê aquele gordo! - pensa Júlio.

De repente, ele avista Beto, saindo despretensiosamente, e virando na direção oposta ao apartamento.

Filho da Mãe, onde vai aquele idiota. – conclui baixo, sem chamar a atenção, _ Não tem problema, amanha, eu vou até ele.

Dito e feito, quando Beto tenta sair para o serviço...

  • Bom dia Beto. – diz impedindo sua saída.
  • Oi, Júlio, eu ia te ligar.
  • Ligar... e o meu pacote... cadê minha encomenda? - relembra nervoso.
  • Júlio, é, eu, sabe...
  • Diz logo.
  • Eu gastei o dinheiro, mas é pouco, vou sacar agora no banco e te dou, vamos comigo!
  • Eu estou me lixando pra esse dinheiro, eu quero minha sacola, o que é lá.
  • Lá!
  • É, lá, seu imbecil, o que tem lá, o que é esse, CAA?
  • Eu não sei!
  • Como não sabe! você ficou quase três horas lá, e não sabe!
  • Escuta Júlio, eu te dou o dinheiro em dobro, e você vai lá, ok.
  • Beto..., filho da puta... que porra tem lá...?
  • É, é... um bordel, isso, é um bordel, é um puteirão como eu disse, mas só tem mulher feia!!
  • Deixa de ser cretino, eu vejo entrar senhoras, de mais de sessenta anos lá, varias vezes, vi casais, e você me vem com essa conversa fiada?
  • Porra Júlio, vai lá você?
  • Eu tentei seu idiota, mas fui barrado, ou porque acha que te mandei ir lá.
  • Toma, leva um cheque, e não aparece mais aqui, você arruma suas merdas e a culpa é minha. – conclui Beto assinando um cheque.

Júlio, toma o cheque das mãos de Beto, e o rasga.

  • Eu não quero essa merda, quero saber, que PORRRRRRA, é esse, C .A .A?
  • Eu lamento amigo, mas você terá de ir até lá.

Beto, virá as costas para Júlio, e caminha em direção ao trabalho.

  • Merda - esbraveja Júlio – retornando para casa.

No fundo, sabia que estava sendo injusto com Beto, mas o que fazer?

Seu mundo virou de cabeça para baixo, desde que essa "loja" abriu, ele já não fazia barba, mal se alimentava, definitivamente, Júlio era um homem obcecado, não entendia afinal, porque, era o único, a ser barrado no CAA.

  • Mas eu vou descobrir, custe o que custar! – diz a si mesmo.

Chegando em casa, Júlio procura a bomba de pneus, enche os pneus de sua velha bicicleta e resolve, que vai rodar em volta do CAA, o dia todo, a noite toda, por dias e dias, até descobrir afinal, o que é aquilo!

E assim o faz, pedala, e pedala, sempre em volta do quarteirão, vê todo tipo de gente entrando, a qualquer hora, sempre sorridentes, entram e saem, _ Mas que ódio. – pensava.

E assim, se passaram, 56 longos e penosos dias, até que Júlio, comece a beirar o desespero.

Certa noite, inicio da madrugada, liga para a delegacia e diz ser um morador próximo, que afirma ter certeza, no endereço, rua qual, numero tal, a algo muito suspeito, provavelmente tráfico de drogas.

Não demora muito, e duas viaturas chegam, ao CAA, enquanto dois policiais, cuidavam dos carros, sem esboçar reação alguma, "Desgraçado & Cão do Inferno", novos apelidos dos seguranças, re-batizados por Júlio, no 44º dia, deixam, que os outros dois homens, entrem no local.

Júlio sua frio, e acredita, _ Agora eu descubro, é batata!

Longos minutos mais tarde, os policiais saem sorridentes do local, inconformado, Júlio espreita na esquina, e sem refletir muito pensa, _ Se passarem por aqui, me atiro na frente deles! – dito e feito, as viaturas, aceleram em sua direção, e o jovem desesperado, cruza na frente.

  • Cuidado!!! - grita o policial para o colega, que resvala em Júlio.
  • Meu Deus do céu, você é louco cara!! – diz o policial.
  • Me desculpe, eu perdi o freio. - diz tentando se recompor.

A outra viatura, que vinha logo atras, freia bruscamente, um policial que está no passageiro, deixa uma sacola voar pela janela, e Júlio, consegue ver, que da sacola com o logo da CAA, sai um envelope com o mesmo logo.

O policial, desse tropeçando do carro, e tenta pagar o envelope, Júlio sem pensar em maiores conseqüências, dá uma "ponte", tal & qual um goleiro, e pega o envelope primeiro.

A primeira reação de Júlio, é abraçar firmemente o envelope, a primeira reação do Policial, é sacar a arma.

  • Largue isso seu moleque!.. – ordena o policial.
  • Cabo, largue essa arma! - diz o ocupante da outra viatura.
  • Abaixa essa arma! - diz outro policial - também apontando para o Cabo.

O parceiro do Cabo, defendendo o amigo, aponta para os outros colegas de farda.

O caos estava armado, Júlio, com os olhos arregalados, apenas respirava e abraçava forte o envelope.

  • Cabo Freitas, abaixe essa arma, é só, um rapaz assustado! – diz o policial.
  • Me devolve isso seu Merda, ou eu estouro seus miolos. – diz o compenetrado policial.
  • Isto é uma ordem, eu sou seu superior, largue a arma, e você rapaz, solte este envelope.
  • Calma Sargento, o envelope é do Freitas, ele só quer o envelope de volta.
  • Freitas, olhe para mim... agora... eu tomo o envelope dele. - conclui o Sargento.
  • Amanha, o senhor vai lá, e pega o seu, este é meu Sargento!!! – ameaça.

O policial, abaixa a arma, e fica na expectativa, do Jovem fazer o mesmo, com o envelope.

  • Me entrega isso rapaz, se não, eu mesmo atiro na sua cara. - diz o Sargento.

Júlio, estica o braço e antes de soltar o envelope, pede, _ Eu só quero saber o que tem nele, só isso.

O Sargento pega o envelope amassado e entrega para o Cabo, _ Guarde essa merda - conclui.

O parceiro de Freitas, solta uma gargalhada e diz, _ Puta merda, quase que tudo vai para o ralo em.

  • Esse xarope do cacete, vá até lá, e pegue o seu, mendigo de merda. – conclui Freitas.

Todos guardam as armas, e Júlio, percebe quando o parceiro de Freitas confere seu envelope, _ O meu tá no bolso, só morto eu perco isso.

  • Vamos embora, chega por hoje estamos todos alterados, quero saber que merda de envelope é esse.
  • Vai nada, - diz o parceiro diz Freitas _ Quer saber Sargento? vá buscar o seu! - acelera a viatura, e sai cantando pneus, e deixando o Sargento falando sozinho.

Antes de partir com seu parceiro, o Sargento, estica uma nota de dez e diz _Toma mendigo, vá buscar um, seja lá o que for. – e sai, a toda velocidade.

Júlio, fica olhando para aquela nota e dez, e refleti por um segundo. _ Mendigo, estou magro, sujo, e maltrapilho, como um mendigo. – conclui.

Ele se levanta do chão, pega a bicicleta, que esta quebrada, e caminha para casa, passa em frente ao CAA, e a dupla de seguranças, atras dos óculos escuros, em plena madrugada, fingem não vê-lo.

A obsessão de Júlio, não cessava, dia após dia, encoberto pela fina cortina, comendo restos, bebendo pouco, definhava, em sua angustia.

haviam se passado mais de 2 meses, por inúmeras vezes, viu vizinhos, amigos, todo o bairro, a cidade toda, só Júlio, não tinha esse direito.

  • Só pode ser uma Seita, e não querem que eu tome parte, e se forem alienígenas, talvez, todos que entrem lá, saiam abduzidos, diferentes, mudados... – viajava em devaneios.

Mas o que quer que fosse, todos viviam à seu despeito, nunca Júlio viu alguém entrar duas vezes num dia, ou mesmo numa semana, as pessoas que freqüentavam o local, eram como sócios, de períodos, que variavam de, uma, a três vezes, no máximo, por conta de viver em função do CAA, Júlio, sabia que isso era cíclico, por algum motivo, todos entravam, mas poucos voltavam, Sr. Rubens, era um dos poucos, que havia voltado.

  • E é dele, que vou arrancar algo. – pensou.

A muito, mas muito tempo, Júlio não se cuidava, estava pálido, o cabelo que não era curto, estava enorme.

Resolveu que naquele dia, seria o ser humano, mais ponderado de todo o planeta, Bem, isso, é o que ele pensava.

Tomou um banho de 15 minutos, algo raro nos últimos tempos, tinha impulsos de voltar a janela, mas tentava, e conseguiu administrar a "abstinência".

Vestiu uma camiseta leve, penteou o longo cabelo, de barba feita, ainda era um jovem bonito, mas que olheiras, estava acabado.

Desceu a escadaria, e reparou que bem em sua porta, uma dupla de velhinhas, daquelas bem simpáticas, o cumprimentaram, com um sorriso aberto,

Enfim, uma demonstração de afeto alheio, foi o primeiro presente daquele dia.

  • Bom dia, bom dia senhoras.
  • Bom dia moço, bom dia.

Observando as velhinhas caminhando, Júlio entrou na farmácia e chamou pelo Sr. Rubens.

  • Seu Rubens, está ai.
  • Sim menino Júlio, um minuto por favor.

Mas infelizmente, apesar da força de vontade, Júlio começa a irritar-se ao ver o entra e sai de pessoas, na porta da misteriosa loja.

  • E ai Sr. Rubens, como anda o movimento.
  • Melhorou muito, graças a Deus. – conclui o velho.
  • Por causa do CAA, não é, Sr. Rubens?
  • Você foi lá!?!?!? – pergunta o velho num tom de desconfiança.
  • Não, eu..., eu sou católico seu Sr. Rubens.
  • E eu não sou! – responde – já vou ai filho. – conclui Rubens.

Enquanto "grita" a conversa com Rubens, Júlio vira para a loja do CAA, e fica de costas para o interior da farmácia, e se assusta quando ouve de Rubens, _ Pois não mocinha o que deseja?

  • O Sr. Rubens, sou eu o Júlio.
  • Me desculpa meu filho, te vi ai, branco, cabeludo, e de costas, achei que fosse a filha da Dona Zefa.

Júlio arregalou os olhos, deu um suspiro, sorriu e disse, _ Até mais Sr. Rubens, preciso fazer algo.

Dentro do minúsculo e bagunçado guarda roupas, _ Tem de estar aqui, eu sei que esta.- dizia e revirava tudo.

  • Achei!, - a confusão de Rubens, deu a Júlio, uma nova e absurda, porem, única chance.

Um vestido destes de verão, esquecido pela ex-namorada, lembranças de uma outra época, onde Júlio, tinha outro propósito de vida.

Uma cueca, e uma camiseta regata, um par de meias, seriam os seios, o vestido é justo em cima, e largo em baixo, perfeito para um travestido.

  • Eu não tenho o que calçar, nada combina, e a maquiagem... "ahhh, tenho manteiga de cacau na geladeira!" – lembrou.

Passou uma lamina de barbear, nas panturrilhas finas, colocou os óculos escuros, e pronto.

Estava horrível, mas pensava, _ Se o velhote se enganou, poderia da certo.

O desespero de Júlio era tamanho, que por um segundo, chegou a rebolar, enquanto seguia para a loja.

Por coincidência chegou um grupo grande, não estavam juntos, mas entrariam juntos, Júlio, fez questão de fica por ultimo, afinal se fosse desmascarado, que não houvesse platéia

  • Pois não mocinha, - diz o falastrão.
  • "Com licença, eu quero entrar!" – disse, tentando um falsete na voz.

O Segurança, aperta, o que parece ser, um "ponto" de escuta em seu ouvido, e diz.

  • Senhor, eu já lhe disse, o senhor não pode entrar, não insista.

Pela primeira vez, "Mudinho", ou "Cão do inferno", seja qual for seu nome naquele momento, abaixou um pouco os óculos, olhou para figura andrógina, e arriscou uma gargalhada, Falastrão, rapidamente o repreendeu com um, "quieto", mas, também não resistiu e começou a sorrir.

Júlio olhou para os pés, e viu que o tênis, "filho único", que um dia fora branco, denunciava sua mazela.

Sem dizer uma palavra, Júlio percorreu os 30 metros de volta para casa, e antes de subir as escadas, olhou para trás, e pegou os seguranças, contendo a gargalhada.

Naquele mesmo dia, Júlio foi ao barbeiro, cortou o cabelo curto, pegou um ônibus, e passou o resto do dia, fora do bairro.

No outro dia, acordou cedo, tomou banho, saiu foi até o mercado, comprou uma caixa de cereais, frutas, peixe, resolveu que deveria continuar a viver, comprou um jornal, _ Nossa quanto tempo não faço isso, estou alienado. – pensou.

Passou o dia tranqüilo, e tinha em sua mente, que de qualquer forma, não olhar para o CAA, era a única forma de esquece-lo.

Como a um dependente químico, passar o dia inteiro sem olhar era difícil, e de dormir, dava um espiada "básica", no movimento.

Quatro dias, já haviam se passado e Júlio ia bem sem o CAA.

Numa madrugada, no canto do primeiro galo, Júlio acorda com um som familiar, confere o relógio 4:37, _ Cigano é você?.

Júlio corre para a janela e naquele horário, até mesmo o CAA estava fechado.

  • Bichano sem vergonha, voltou para casa não é? – pergunta a seu gato "foragido".

Cigano, está miando em cima do telhado, com medo de perde-lo novamente, Júlio resolve sair a sua procura.

Por trás do prédio, da farmácia, há uma escada chumbada, que da acesso ao telhado, de pijama e sem os óculos, o rapaz sobre no telhado e percebe que Cigano, está na beirada frontal, arriscando-se pelo ingrato bichano, Júlio chega ao beiral, e Cigano, pula na sacada.

  • O bicho nojento... Se ia pular para casa... Para que me trás até aqui. – murmura.

Balançando o rabo, o gato entra no apartamento, e dá ao seu inquieto dono, uma perspectiva, diferente prédio do CAA.

É incrível, como um pouco mais de altura, o deixava mais sensível, ao episódio do loja.

Deu um sorriso e pensou – Que se dane, se eu vivi 26 anos sem esse CAAAAA..., que merda for, posso viver mais, sem ele.

Quando se preparava para descer, Júlio, percebe que ao longe, uns dois quarteirões, na esquina, sobre a loja e calçados, há um homem espionado o local.

  • Eu não podia ser o único. – logo suspeita.

Desce com cuidado as escada e corre me direção a esquina, no fim dos 200 metros, quando chega ao local, se depara com um senhor entrando num carro.

  • Senhor, por favor abra o vidro!

O homem apavorado, tenta dar a partida no carro, mas, se atrapalha e derruba as chaves.

  • Por favor não vá, Eu também fui rejeitado!

O silencio estabelecido, o homem destrava a porta do passageiro e diz. _ Entre, rápido!

Júlio entra, e o carro sai a toda velocidade.

Dentro do carro, havia toda a modalidade de binóculos, câmeras fotográficas, uma parafernália, digna de agente secreto.

  • Não te deixaram entrar? - pergunta o homem.
  • Não, a mim não, e o senhor?
  • Eu achei que eu fosse o único, a quanto tempo eles estão aqui?

Júlio, pensar um pouco e diz, _ Pouco mais de dois meses.

  • Diga a verdade, rapaz – propõe o homem.
  • Exatos 72 dias.
  • Você é como eu, é obstinado. – aposto que os observa o tempo todo.
  • Sim.
  • Eu sei como é, já estou perito nisso, eu os persigo 8 meses.
  • Oito meses, mas como é possível?
  • Eles ficaram seis meses na minha cidade, e assim como você, nunca me deixaram entrar, perdi minha esposa por conta disso, ela conseguiu, mas se recusou a me dizer, o que faziam por lá.
  • Eu já perdi dois amigos, e quase fui morto pela policia.
  • Seja lá o que for, é maior que tudo isso.
  • O que são aqueles envelopes nas sacolas?
  • A única coisa que sei, é que um certo dia, todos que tem o envelope, são chamados, e depois disso saem de lá, sem ele.
  • Eu quase enlouqueci por isso. – afirma Júlio.
  • Não se preocupe, mais um três meses, e você consegue.
  • Entrar no CAA?
  • Não, ficar louco!
  • Sinceramente, eu a dias penso, em abrir mão disso, eu não quero ficar louco.
  • Eu não sei, tive inúmeras idéias e até hoje, não cheguei a conclusão alguma, estou a 263 dias vivendo em função disso, moro nesse carro, e passou ao menos 4 vezes por dia defronte ao CAA, quando isso vai acabar?, em breve, estou doente, uma pneumonia mal tratada, me deixe invalido as vezes, ficar sentado, ou escondido em lugares inóspitos, estão me arruinando.
  • É esse o meu medo. – conclui Júlio.
  • Mas eu não sou fraco, e estipulei uma data, dia 08 de setembro, daqui a 90 dias, eu completo, um ano tentando descobrir isso, e se não conseguir até esse dia, no dia 09, eu desisto e para tudo.
  • Espero que o senhor descubra antes de pirar.
  • Uma coisa é certa meu jovem, se acaso eu descobrir, e meus meses de experiência, me dão, a única certeza que tenho disso tudo. – conclui o homem.
  • E o que é? – pergunta Júlio.
  • Se eu conseguir, Não vou lhe contar!!!

O homem para o carro, Júlio desce, e percebe estar bem longe de casa, caminhando de volta, pensou no ocorrido e decidiu. _Para mim, Chega!!!

Acordou no meio do dia, com Cigano lambendo-lhe a cara, alisou um pouco o bichano, bocejou, espreguiçou-se, e resolvei ter uma nova vida.

Subiu no telhado, arrumou a antena parabólica, e ainda espiou pela ultima vez o CAA, mas decidido, travou a porta balcão, fechou as cortinas, colocou um móvel bem abaixo dela, impedindo que Cigano fugisse, e que ele avistasse o CAA.

Saiu a rua, foi ao banco, ao mercado, comprou muito atum, se Cigano não comer eu como, abasteceu a casa, comprou revistas, livros novos, alugou Dvd´s, estava municiado para a guerra, ou melhor, para ao menos vencer a batalha, por um mês.

E não era fácil, bisbilhotar, tinha se tornado um vicio, uma praga difícil de exterminar, mas "vivendo um dia de cada vez" como diz o slogan, dos alcóolicos anônimos, Júlio perdera o vicio.

Passaram-se uns bons dias, 15 talvez, e numa manha, desencostou os moveis, e que surpresa, nem lembrou da "loja" , faxinou a casa, deu banho no cigano, e saiu para devolver os filmes.

Não olhou para o CAA, como por encanto, perdeu o costume. Voltou com mantimentos, abriu a cortina, ligou o som, fez macarrão, abriu um vinho, alisou o Cigano, comeram até ficarem sonolentos, e cochilaram depois do almoço.

No final da tarde ouviu a campainha, - "Ding Dong".

  • Quem será? _ levanta rápido, todo amarrotado, mas resolve assim mesmo, ir até a porta.

Ao abrir a porta. _ Que susto. – soltou sem querer.

  • Boa tarde senhor, não pretendia assusta-lo. - disse o segurança.
  • Boa tarde.
  • O senhor, é nosso convidado, para entrar no CAA.

Júlio não acreditava naquilo, "falastrão" ali, na sua porta ,o convidando para entrar!!

  • Você aguarda eu trocar a camisa?
  • É evidente senhor, Por Favor?

Júlio, sinceramente, havia virado a pagina, mas afinal, era um convite, inimaginável e irrecusável, a até pouquíssimo tempo, não podia deixar escapulir.

Estava pronto, mas fez um pouco de cera, para não demostrar o entusiasmo.

  • Eu estou esquecendo de alguma coisa. – pensa e corre os olhos no Ap.

Cigano mia por duas vezes, chamando sua atenção. _ É isso, minha carteira!

  • Ei bichano, se não fosse você...- diz, o rapaz, alisando a cabeça do gato.

Enfim, Júlio desce, e o segurança, o espera calmamente.

Juntos caminham até o CAA, e num relance, percebe que muitas pessoas, transeuntes, cochicham à respeito da cena.

Sem entender, o jovem, enfim chega a porta da loja.

A porta se abra, é só escuridão. Um homem pega Júlio pelo braço, e conduz até uma cadeira. Confortável, Júlio percebe não estar só, sem muito alarde, deixa seus braços soltos, e sente através de ambos, que as cadeiras a sua volta, estão ocupadas.

Era uma espécie de platéia, mas numa penumbra assustadora. Alguém tosse, _ Ainda bem, tem outros aqui. – conclui.

De repente, uma luz se acende a sua frente, e o cega por uns instantes.

Uma enorme tela, como à de um Cinema, dividida em oito partes iguais, passa a transmitir, imagens de diferentes pessoas, fazendo coisas simples, com atravessar a rua, carregar sacolas, bater papo, namorar, nada de especial.

São seqüências repetidas, nas oito telas, cada uma, exibia o cotidiano de uma pessoa, mas o diferencial, era que as imagens, retratavam as redondezas do CAA.

Era, como se para cada pessoa, existisse uma equipe de reportagem, filmando seus passos nas imediações, e aos poucos, as imagens foram ficando, mais fáceis de se identificar, uma seleção foi sendo feita, e somente os com maior numero de aparições, ficaram nas telas.

Até que sobraram, nas oito telas, oito pessoas diferentes e fixas, e numa delas na quarta tela... _ Espere um pouco, Sou eu!!! – vislumbrou Júlio.

Concentrado, agora somente na quarta tela, Júlio, assistia a um vídeo clipe, de suas ações, no ultimo trimestre, sua primeira tentativa de entrar, todas as vezes que passou com a bicicleta, o dia do atropelamento, com os policias, vestido de mulher, ouviu risadas, quando a tela ampliou sua imagem travestido, de que forma fosse, nas janela, ou de frente a farmácia, cada vez que Júlio olhou para o CAA, ele foi flagrado.

Júlio, agora mais a vontade, olha em volta e vê, mesmo a pouca luz, muitas pessoas sentadas, e assim como ele, fascinadas com as imagens.

E todos com um papel na mão, que ele não conseguia identificar.

  • Mas espere um pouco – pensou _Que diabos é isso, um reality show, no qual os participantes, não sabem que estão nele?

Antes de conclui o pensamento, a tela se apagou, e da escuridão, veio um facho de luz, que iluminou o palco defronte as poltronas.

Um homem bem vestido, pede - _Acendam o placar por favor.

Neste instante, ao lado da tela, aparecem oito fotos retiradas dos vídeos, e em 4º lugar quem aparece? _ Júlio, com os cabelos compridos, óculos escuros, e a boca brilhante.

  • Muito bem senhores, o participante, C 94, hoje figurando no quarto lugar, não pagou prêmio, pois desistiu no 82º dia, e por isso, foi convidado a participar, da nossa jornada no Clube dos Apostadores Anônimos, ou CAA, como preferirem.
  • Eu sou uma "pedra de Bingo"? – pensou.
  • Se algum apostador, tiver qualquer "pule", constando o participante C 94, o prêmio para quem o tiver, será pago, no valor da aposta multiplicada, por 100.000 vezes, desde que, o canhoto traga a seguinte ordem, C 94 – 82 dias, ou C 94 23/06/02 , alguém?

Júlio percebe que alguns dos presentes, amassam um papel e o jogam no chão, ele abaixa-se e pega um destes, e vê sua foto, e as seguinte inscrição, C 94 – 102 dias , aposta $30.

  • Que coisa louca! – raciocinava Júlio.

Enquanto tentava entender, o sórdido Jogo, Júlio, repara que em sua foto tem a inscrição,

x100.000, no terceiro colocado, uma mulher a inscrição, x250.000, na segunda colocado, uma senhora, x500,000 e no primeiríssimo lugar, x1.000.000.

As luzes se ascendem e a maioria dos apostadores, levantam-se , alguns vão direto para a saída e a grande maioria, caminha em direção as cabinas de apostas.

Só então, Júlio conseguiu reparar, que atras do palco, camufladas pelas vidraças, de dupla função, não podia-se ver de fora, mas, existiam muita câmeras, todas ligadas a um computador, e a uma mesa de edição, que filmavam tudo, o que se passava na frente do CAA. O mestre de cerimônias, desse do palco e se apresenta - _ Muito prazer meu jovem, foi muito bom poder contar com você nesse projeto.

  • Mas como fazem isso, sem minha permissão? – pergunta.
  • Façamos isso agora, - responde sorrindo – somos amparados pelo governo federal, essa nova modalidade de jogo, tem respaldo federal e é reconhecido inclusive, pelo ministério da saúde, e da fazenda é claro, (sorri), como, loteria regulamentada, e de ajuda ao cidadão dependente, "projeto destinado aos jogadores compulsivos." _ Isto é um tratamento médico. – concluiu.
  • Eu não creio que o Governo faça parte disso.
  • Meu jovem, a grande maioria dos apostadores, o fazem por problemas psicossomáticos, ou de ordem emocional. Um jogador, seja ele de dados, cartas, ou "roleta russa", entra no jogo pelo risco, e não pelo valor do prêmio, e até hoje meu filho, não houve um só apostador, que tenha divulgado, o que e passa aqui dentro.
  • E, o que eu ganho com isso, além de me expor ao ridículo?
  • Meu jovem , os benefícios deste "negócio", visam a "sua" cura, e não a "nossa". É fato meu rapaz, ninguém, fora daqui, o julgará, cobrará, ou ameaçará sobre esse jogo, são cidadãos como você, que enriquecem, e possibilitam que nós, jogadores compulsivos, pratiquemos nosso vicio. Os curiosos, ou não anônimos, como gostamos de chamar, ganham duas vezes, perdem o vicio da curiosidade, e ainda, quando desistem, ou melhor, se curam, podem apostar, com chances maiores. Somente um curioso, pode prever outro.

Após um tapinha nas costas, o homem deixa Júlio sozinho.

Enquanto se caminha para a saída, ele conclui, _ É claro, faz todo sentido, Beto, os Policias, as velhinas, o Sr.Rubens, todos viam em mim, uma chance de enriquecer, e nunca me contariam, ainda mais, com estas cotações, e prêmios astronômicos.

Faltando poucos passos para a saída, Júlio tem um pensamento, que o faz para.

Caminha em direção contraria, aproxima-se de um dos guinches, olha para o placar, onde seu rosto esta marcado com um "X" vermelho, e diz a moça do caixa.

  • Quer dizer, que se eu apostar, num concorrente qualquer, e este, desistir na data que eu te disser, ganho o valor da aposta multiplicado pela cotação.
  • Sim senhor, é isto mesmo senhor, o valor máximo da aposta, é de $50 para os três primeiros colocados, e, é ilimitado, a partir do quarto lugar senhor.

Aquele frase pronta arranhou os ouvidos de Júlio, que colocando a mão no bolso, acha a nota e dez, que o Policial lhe deu.

  • Dez, no primeiro, se acerto, vocês me pagam $10.000.000 (Dez Milhões)?
  • Sim senhor, vale o escrito, desde que o senhor, acerte a data, ou a quantidade de dias, até o concorrente desistir.
  • Por favor moça, Dez no concorrente que está em primeiro lugar.
  • A data de desistência dele, por favor?
  • Dia 09 de Setembro.
  • Setembro Próximo agora, de 2002?

Júlio olha para a foto do homem, e por um instante, se reconhece no semblante desesperado.

  • Não, 09 de Setembro de 2003.
  • Obrigado senhor, Boa sorte.

A moça pega o bilhete, coloca num envelope do CAA, e numa sacola com o mesma Sigla, e entrega à Júlio. _ Boa noite senhor.

O mais incrível, é que depois do episódio, tudo fazia melhor sentido.

Realmente, ara uma terapia para o curioso, e uma forma de amenizar a gana dos viciados.

Era um sistema bem bolado, bem arquitetado, e praticamente sem furos. Ou mais ou menos isso.

Nunca, Beto, Sr. Rubens, ou qualquer outro envolvido neste jogatina, tocou no assunto com Júlio, e sempre que o viam, o cumprimentavam, como se nunca aquilo tivesse acontecido, e muito provavelmente, o faziam, porque continuavam a jogar, em outros cavalos, mas com a mesma regra.

E a vida corria normal, até que, quatorze meses depois, Júlio foi ao CAA.

  • Bem vindo senhor, o gerente já vai atende-lo. - diz a moça.

Alguns minutos depois, aparece o mestre de cerimônias._ É o senhor o felizardo, posso conferir o bilhete. - o homem pega o bilhete e lê, G 22 – 09/09/2003, aposta $10.

  • Quando recebo meu dinheiro?
  • Eu só preciso dos seus documentos, e do numero de uma conta bancária.

Minutos mais tarde, o gerente entrega ao rapaz os documentos e um recibo de depósito no valor de $7.500.000.

  • Já está disponível, e logicamente, o imposto foi abatido.

Júlio sai do CAA, além de milionário, com uma certeza, _ Ao menos a participação da Receita Federal, era verídica.

Tanto Júlio, como o participante que o possibilitou o prêmio, (o homem do carro), eram acima e tudo, "doentes", e foi simples, Júlio sabia que um homem, no meio da madrugada, trepado em um telhado escorregadio, ainda não estava pronto, para desistir, o resto, foi um pouco de sorte.

Voltando para casa, Júlio percebeu nitidamente que o Sr. Rubens, o comia com os olhos, um misto de inveja e raiva, deixava o velhote inflamado.

Júlio pegou Cigano, e mais nada.

Entregou as chaves ao Sr.Rubens, e foi embora da cidade.

Dois anos depois, um carro luxuoso, estaciona em frente a farmácia do Sr. Rubens.

O motorista desce, abre a porta traseira, e Júlio salta do carro, muito bem trajado, e com Cigano nas mãos.

Sr. Rubens , reconhece o rapaz de vem sauda-lo.

  • Tudo bem seu moço. – diz Rubens, tentando ser simpático.
  • Como vai o senhor.
  • Vou mais ou menos, depois que o CAA fechou, o faturamento, caiu muito.
  • O senhor me vê uma caixa de aspirinas, não, melhor, o remédio mais forte, que o senhor tiver para dor de cabeça, por favor.
  • Claro menino Júlio. - diz o velho sorridente.

Enquanto aguarda o remédio, Júlio contempla os trabalhadores, da construção civil, que iniciam com a limpeza do terreno do extinto CAA.

  • Esse é tiro e queda. – diz Rubens, entregando o remédio.
  • Quanto eu devo?
  • São $23.

Vinte e três, por uma caixinha de um produto similar.- pensava, Júlio – esse velho não muda.

  • Toma, fique com o troco. – diz esticando uma note de $100.
  • Obrigado menino Júlio, você viu, o que será que vais ser? – pergunta, apontando para o terreno.
  • É meu, eu comprei o terreno, vou fazer um prédio novo.
  • Ohh que bom, que bom menino Júlio, e o que vai ser ai? – insiste.
  • Uma Drogaria!

Sr. Rubens, imediatamente, passa a mão no rosto, fica vermelho, e precisa se escorar na fachada de sua farmácia, para não cair.

  • Ah, à propósito Sr. Rubens, fique com o remédio. – Júlio, arremessa o pacote para Rubens.

Júlio entra no carro, solta Cigano no estofado, e diz ao motorista, _Vamos para casa.

São inúmeras as supostas, "morais da história" , mas eu gostaria de deixar uma;

"O gato, sempre sabe a hora de voltar."

11 September

conto removido

 

Obrigado aos que leram e aprovaram este texto, mas ele foi removido pq estou engajado em promove-lo à algo mais "concreto", em breve postarei novos contos, obrigado aos visitantes.

FD.

08 September

Conto removido II

                                        
                    
SP 08/09/05
Pois é, quase um ano depois este tb virou algo mais concreto, o outro será se Deus quiser, um filme, e este está indo fazer parte de um projeto chamado "histórias de sp", em breve.
abraço a todos que postaram.
FD.
SP 02/09/06